Posts categorized “POETAS PORTUGUESES”.

LISBOA COM SUAS CASAS DE VÁRIAS CORES. Álvaro de Campos (11-5-1934)

 

LISBOA 19022017 2

Escultura de Fernando Pessoa en el Chiado 
Por Lagoa Henriques
(1923-2009)
[Foto: Lorenzo del Término (Lisboa 2017)]
 

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono,
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.
Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra cousa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fico só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

 

[Obra essencial de Fernando Pessoa (Poesia dos outros eus).
Editorial Assírio & Alvim.
Lisboa 2010.
Págs. 404-405]

 

EPÍGRAFE. Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

 

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Eremitorio arrábido

[Foto: Lorenzo del Término (Portugal 2016)]

 

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?…
Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada,
A cor morreu —e até o ar é uma ruína…
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina—
Um som opaco me dilui em Rei…

 

[MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916)

Poesías.

Editorial Nova Ática. Lisboa 2004.

Pág. 83]

 

CREPUSCULAR (ITINERÁRIOS DA ARRÁBIDA). Sebastião da Gama (1924-1952)

 
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San Pedro de Alcántara (1499-1562) orando en el convento novo da Arrábida

(escultura)

[Foto: Lorenzo del Término (Portugal 2016)]

 

   Aqui onde estou só, não estou só.
—Estão comigo todos os que eu amo
e não sabem nem podem
viver em si a sua vida;
estão em mim, os meus, e é com minh’alma,
por todos irmãmente repartida,
que conseguem viver a sua vida.
E eu vivo agora mais, que os vivo a todos.
E eles todos deixaram
de apenas existir…
Ah mistério inefável!…
—São seus lamentos meus ou alegrias.
Todo vibro de Amor. Abraço e beijo.
Sou a fogueira rubra a que se aquecem
aqueles que eu amei só porque os vi.
Sou noite de Natal.
Sou as lembranças dos velhos;
os sonhos das raparigas;
os olhos encantados do menino
que se parece comigo
quando eu era pequenino,
e também se debruça na fogueira.
Sou a tristeza de alguns
e o seu conforto.
E sou eu
que dei sentido à su vida e à minha;
o que fugiu do povoado
e no ermo da Serra se isolou
……(ai a dor de ver todos sem viver!
……sem reparar no seu Amor mendigo!
……ai simulacros de almas que o levaram
……a retirar-se consigo,
……desgostado,
……lá no deserto monte
……aonde, perdoando, o invocou!)

   Até aonde estou
vieram,
pelos caminhos longos da minh’alma,
os que me não quiseram
e me fizeram
fugir.
E logo tudo se passou
como se eu estivesse lá como eles
e não aqui no ermo,
só.

 

[ITINERÁRIOS DA ARRÁBIDA (COLECÇÃO DE 16 POSTAIS).

Poemas de Sebastião da Gama (1924-1952).

Edição da Câmara Municipal de Setúbal.

Poema 7.

1987]

 

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DA SERRA DA ARRÁBIDA. Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

 

DA SERRA DA ARRÁBIDA. Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

 
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Convento de la Arrábida

[Foto: Lorenzo del Término]

 

«Escritor de cariz manierista, compuso una variada obra lírica que testimonia el dramático conflicto entre el pecador, afligido por el remordimiento, y el hombre guiado por una profunda saudade do céu, que más se aviva y consolida en contacto con la naturaleza exuberante de la Sierra de la Arrábida (encarnación terrena de lo divino), indisociable de su vida y de su poesía.

»En el conjunto de ésta, merecen destacarse los sonetos y las elegías…»

 

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DA SERRA DA ARRÁBIDA

Frei Agostinho da Cruz

(1540-1619)

   Do meio desta Serra derramando
A saudosa vista nas salgadas
Águas humildes, quando e quando inchadas,
Conforme o vário vento vai soprando,

   Estou comigo só considerando,
Donde foram parar coisas pasadas,
E donde irão presentes mal fundadas,
Pois pelos mesmos passos vão pasando.

   Oh qual se representa nesta parte
Aquela derradeira hora de vida
Tão devida, tão certa e tão incerta!

   Em quantas tristes partes se reparte,
Dentro nest’alma minha entristecida,
A dor, que em tais extremos me desperta!

 

[ANTÓNIO MATEUS e DANIEL PIRES.

A Serra da Arrábida na Poesía Portuguesa.

Ed. Centro de Estudos Bocageanos.

Setúbal, 2014.

Págs. 21 y 23]

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Eremitorio arrábido

[Foto: L. del T. 2016]

 

DISPERSÃO. Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

 

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Lisboa 2016-1

[Foto: Manuel Verpi]

 

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentía comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia)

O pobre moço das ânsias…
Tu, sim, tu eres alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro —
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada.
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei con ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi… mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!…)

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas…
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas…

Tristes mãos longas e lindas
Que eran feitas pra se dar…
Ninguém mas quis apertar…
Tristes mãos longas e lindas…

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?… Ai de mim!…

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço…
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço…

… … … … … … … … … … …

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba…

… … … … … … … … … … …

 

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Lisboa 2016-2

[Foto: Manuel Verpi]

 

[MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916)

Poesías.

Editorial Nova Ática. Lisboa 2004.

Págs. 61 a 65.]

 

TESE E ANTITESE/TESIS Y ANTÍTESIS. Soneto de Antero de Quental (1842-1891) traducido al español, con licencias, por Lauro Gandul Verdún en 2013

 

Já não sei o que vale a nova ideia,
quando a vejo nas ruas desgrenhada,
torva no aspecto, à luz da barricada,
como bacante após lúbrica ceia…

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
respira fumo e fogo, embriagada:
a deusa de alma vasta e sossegada
ei-la presa das furias de Medea!

Um seculo irritado e truculento
chama à epilepsia pensamento,
verbo ao estampido de pelouro e obus…

Mas a ideia é num mundo inalterável,
num cristalino céu, que vive estável…
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

 

Antero_de_Quental_(ca._1887)Antero de Quental en una foto realizada por autor anónimo hacia 1887

 

Ya no sé lo que vale la nueva idea,
cuando la veo en las calles desgreñada,
terrible de aspecto, a la luz de la barricada,
o como bacante después de lúbrica cena…

Sanguinolenta la mirada se le incendia;
respira humo y fuego, embriagada:
¡La diosa de alma vasta y sosegada
presa es de las furias de Medea!

Un siglo irritado y atroz
que llama a la epilepsia pensamiento,
y verbo al estampido de bala y obús…

Mas la idea está en un mundo inalterable,
en un cristalino cielo, donde permanente existe…
¡Tú, pensamiento, no eres fuego, sino fulgor!

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ACCORDANDO/DESPERTANDO. Soneto de Antero de Quental traducido al español por José Pardo en 1940

 

ACCORDANDO/DESPERTANDO. Soneto de Antero de Quental traducido al español por José Pardo en 1940

 

Em sonho, ás vezes, se o sonhar quebranta

este meu vão soffrer, esta agonia,

como sobe cantando a cotovia,

para o céo a minh’ alma sobe e canta.

 

Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,

que ao mundo traz piedosa mais um dia…

Canta o enlevo das cousas, a alegria

que as penetra de amor e as alevanta…

 

Mas, de repente, um vento humido e frio

sopra sobre o meu sonho: um calafrio

me accorda. —A noite é negra e muda: a dôr

 

cá vela, como d’antes, ao meu lado…

Os meus cantos de luz, anjo adorado,

são sonho só, e sonho o meu amor!

 

Pájaros. Rota 2011 por Olga Duarte Piña

 

En sueño, a veces, si el soñar amansa

este vano sufrir mío, esta agonía,

como la alondra que cantando sube,

para el cielo mi alma sube y canta.

 

Canta el alba, la luz, la estrella santa

que al mundo trae piadosa un día más…

Canta el arrobo de las cosas, la alegría

que las llena de amor y las eleva…

 

Mas de repente, un viento húmedo y frío

sopla sobre mi sueño: un temblor

me despierta. La noche es negra y muda, el dolor

 

aq vela, como antes, a mi lado…

mis cantos de luz, ángel amado,

son sueño solamente y sueño también mi amor.

[De ANTHERO DE QUENTAL, Poesía.
Selección, traducción y prólogo de José Pardo.
Ed. Yunque. Barcelona, 1940. Págs. 30 y 31]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN CANTA A LISBOA DESDE EL «MIRADOURO DE GRAÇA». Fotografías de Lauro Gandul Verdún (Lisboa 2012)

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También en «CARMINA»:

OS PINHEIROS GEMEM QUANDO PASSA O VENTO… Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

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DA MINHA ALDEIA VEIO QUANTO DA TERRA SE PODE VER NO UNIVERSO… Alberto Caeiro [F. Pessoa]

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Desde mi aldea veo cuanto de la tierra se puede ver en el Universo…

Por eso mi aldea es tan grande como otra tierra cualquiera

Porque yo soy del tamaño de lo que veo

Y no del tamaño de mi estatura…

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En las ciudades la vida es más pequeña

Que aquí en mi casa en la cima de este otero.

En las ciudades, las grandes casas cierran la vista con llave,

Esconden el horizonte, empujan nuestro mirar lejos de todo el cielo,

Nos tornan pequeños porque nos quitan lo que nuestros ojos nos pueden dar,

Y nos tornan pobres porque nuestra única riqueza es ver.

[Traducción, libre, al español: LGV]

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―NÃO PASSES, CAMINHANTE! ―QUEM ME CHAMA?. Soneto de Luís de Camões (1525-1580)

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―Não passes, caminhante! ―Quem me chama?

―Ũa memória nova e nunca ouvida,

Dum que trocou finita e humana vida,

Por divina, infinita e clara fama.

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―Quem é que tão gentil louvor derrama?

―Quem derramar seu sangue não duvida

Por seguir a bandeira esclarecida

De um capitão de Cristo, que mais ama.

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―Ditoso fim, ditoso sacrificio,

Que a Deus se fez e ao mundo juntamente,

Apregoando direi tão alta sorte.

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―Mais poderáis contar a toda a gente,

Que sempre deu sua vida claro indício

De vir a merecer tão santa morte.

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